Gilmar

Minha
nossa! Nunca uma fruta deliciosa como o abacaxi foi
tão tripudiada como está sendo hoje.
Verdade!
Tripudiada mesmo.
Não
quero dizer com isso que no inventário humano
nunca se fez merda. Claro que só fizeram isso
e muito mais, só que agora a fabricação
da bosta é incalculável, não tem
estatística que consiga estimar um número
aproximado para tanta besteira junta e que vem tomando
esferas astronômicas.
E
o pior de tudo, é que deixaram de jogá-la
só na privada, e, agora, lançam nos negócios,
nos palácios, nos gabinetes, nos escritórios,
em todo lugar, e até na rua, a ponto de, qualquer
dia, a gente chegar a ser engolido pelo excremento que
nós mesmos produzimos na nossa leseira egoísta.
Sério
mesmo, além do lixo fabricado pelos fabos - leia-se
fabricantes de bosta -, vem, ainda, o próprio
resultado do produto interno bruto dos despropósitos
do apaideguado. Isto não só sou eu quem
está dizendo, o Plínio Marcos mesmo, antes
de morrer, profetizou apocalípticamente, mais
ou menos isso: o mundo vai se acabar atolado na bosta
mesmo. Parece, duvido não.
Pois
bem, voltando ao abacaxi que é uma planta da
família das Bromeliáceas, da variedade
de ananás e ameríndia de nascença
que, além de fruta saborosíssima, ainda
é aproveitada as suas fibras brancas e fortes
tiradas das plantas para fabricação têxtil.
Também, o Ananas sativus, como é cientificamente
conhecido, sempre foi popularmente entendido como sinal
de confusão e embrulhada indescascável
(existe essa? Indescascável? Nossa, tô
c´a gota, hem? Coisa assim do tipo nó cego
com aquele laço apertado que por mais que se
tente desatar, mais se enocega - eita! De novo? Enocega?
Vamos lá, tô que tô).
Resultado:
conforme os dicionários, se é nó,
vira intriga, enredo, embaraço, estorvo, ou melhor,
resumindo tudo num nó górdio. Pronto.
Claro,
num país em que qualquer sujeitinho aspirante
a sabido aprende logo a dar nó em fumaça,
praticante já de dar nó-em-pingo-d´água,
imaginem. Daí se dizer que todo brasileiro tem
um nó dos arretados nas costas, ora. E que nó.
Um? Vários, acho. Karma brasileiro.
Não
foi sempre assim. Essa planta tropical bienal já
teve seus tempos áureos. Não muitos. Exemplo
de um deles, era quando o Chacrinha premiava os roucos
& desafinados com um tremendo troféu humilhante
e jocoso. Mas desde que o Brasil foi descoberto, principalmente
quando descobriram que não existia pecado algum
abaixo da linha do equador, nossa, a zona fabricava
desde então e até hoje não só
abacaxis com proporções gigantescas, como
também recheado de tranqueiras e outras tralhas
mais porretas. Coisas do Brasil.
Se
tudo na história oficial do país é
contestável e deixa identificar que o acúmulo
de besteiras e safadezas no decorrer dos séculos
resultou num país quase inviável como
o nosso hoje, dá para prever que a coisa ainda
vai ter muita lenha para que a gente consiga consertar
essa colcha de retalhos que é puxada por todos
em todas as direções opostas, valendo
dizer que, se não existir esperança, a
gente desanima mesmo.
Pois
é, a gente se acorda e vê logo abacaxi
por todo lado em broncas que a gente nem sequer sabe
como foi que tudo começou, mas que já
vem estampada nas manchetes dos jornais todo dia, tudo
parece que confirmando o velho ditado de que notícia
ruim nunca vem sozinha. E no Brasil ela vem aos bandos,
como se todo dia abrissem a renovável boceta
de Pandora daqui.
Além
do mais, é muito puxa-e-encolhe mesmo, da coisa
passar anos e décadas se arrastando num litígio
prá lá de assanhado, até vencer
ou não pelo cansaço. E daí que
quando chega a ter vigência já foi tão
saturada que vira legal ultrapassada. Isso porque não
se deram nem se dão conta de que novas escaramuças
foram criadas mais ingicadas ainda e as que foram resolvidas,
ninguém quer saber mais. É todo dia, o
dia todo e de novo. E tome lenha na fogueira pro circo
pegar fogo mesmo! E tome sobressaltos, injustiça
e iniquidade.
Eis
que, de sopetão, me aparece - como sempre! -
o Doro com uma de suas brilhantes sugestões:
-
Issu aqui num é mermo abacaxi? Um abacaxizão?
-
É.
-
Dos grandão mermo, daqueles bem raçudo,
né?
-
É.
-
Intonse, é só pegá duma pexêra
amolada, bem afiada mermo, retaiar o bicho em rodelas
e aí nóis comi tudo.
-
Como é?
-
Oxente, quero vê abacaxi que dê vencimento
na fome desse povaréu todo, ora!
Bem,
só o Doro para sair com uma dessas, hem? E, com
essa, até mês que vem. Bié, bié,
glup, glup!
©Luiz
Alberto Machado.

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