igor kopelnitsky

 

 

Haja luz. E houve e tudo era harmonia, até que veio o homem e começou a confusão. Não sabia Deus que criara à sua imagem e semelhança, um produto que viera com alguns defeitos de fabricação. Pudera, vez que o Absoluto, por ser brasileiro da gema, acordou de tédio numa segunda-feira, com uma ressaca das brabas, brincando de inventar as coisas. Não sabia ele, coitado, a zona e o desrespeito que lhes cuspiriam na sua santa face e nos meteria, pela insolência, numa enrascada sem solução.

 

Pois é, o homem, produto de sua santa criação, empanturrando-se de deificação, já que era à imagem e semelhança do Poderoso, tomara ao pé da letra o que lhe fora dito e, possuidor daquela soberba que lhe seria peculiar ao longo dos anos, dono do próprio nariz, maluvido que só, abocanhou logo o fruto proibido e copulou. Fora logo expulso do paraíso, sinal de sua insubordinação (também, pudera, deve ser chato à beça estar naquela monotonia da boa, coçando o saco. Tem que haver uma quiziliazinha para animar, num é não?).

 

Vieram, então, os filhos. E, numa daquelas arengas infantis levadas pela inveja, cobiça e outros tantos atentados aos mandamentos, achou por bem dar fim na discriminação sofrida e matou o pastor de ovelhas, acumulando para si só o lucro de tudo isso: as posses do irmão. Estava rico e impune.Ninguém lhe meteria o bedelho nos negócios. Com isso dera início aos princípios de acumulação, demovendo os obstáculos e a desastrosa odisséia torpe e sórdida do ser humano.

 

Muito mais de dois mil anos de vícios se passaram e um replay deste crime já se torna corriqueiro e nos leva a encará-lo de forma natural, banalizada e até jocosa, visto que o homem é o único animal que ri de sua própria desgraça. E rimos até hoje, por exemplo, da loucura obsessiva dos soberanos do império romano; do holocausto dos nazistas alemães; da matança indiscriminada dos ameríndios; da escravidão dos africanos; do massacre dos estudantes da praça Celestial; das bombas de Horoshima e Nagazaki; dos golpistas do Brasil em 64; da limpeza étnica balcânica; do apartheid segregando raças; do fundamentalismo teocrático dos muçulmanos, etc etc etc.

 

Nos interessamos mesmo quando o congresso dos USA se acha no direito de invadir unilateralmente qualquer país do planeta em defesa de não sei quem (sabe-se lá, meu Deus!!!), num intervencionismo dominante e imperialista. Dizem os tolos: tem que botar moral! Por isso os ianques gastam mais de 30 bilhões de dólares por ano na manutenção de armas e que, dizem, na verdade, seriam 4 toneladas de dinamite na cabeça de cada pessoa. Só? É pouco! É pouca munição mesmo para ser tão insignificante. Também, com uma bagatela dessas daria para saciar a fome de bilhões de bocas famintas em vários continentes do mundo. Isso não é nada, avalie. Veja o lado bom da coisa: e os lucros bélicos? Quantos impostos num são recolhidos para saúde, educação, segurança, etc? Deles, né? Que contrasenso...

 

Na verdade, a gente gosta mesmo é de ver a careta do sofrimento, não existe nada mais engraçado. E o negócio melhora mesmo depois das armas químicas, cada uma mais fuderosa que a outra, mais baratas e com efeitos mais eficazes. É verdade, tem uma com gases de Tabum, outra de Sarim e, ainda, as bacteriológicas, uma delas criada do Bacilo de Antraz que dá aquela sensação de armagedon, só que lá longe, aqui não. Seria divertido. Bonito de se ver. A gente ficaria sentado confortavelmente vendo as explosões levadas pela tolice estapafúrdia da nossa dessemelhança: pimenta no furico dos outros é refresco! É o mesmo que ver uns filmes catastróficos tão comuns na telinha punhetando a selvageria animalesca recôndita em cada um insano.

 

Ora, gente, que cúmulo de sordidez que nada! A terra é redonda e ainda cagam pelos quatro cantos do mundo! Nem se aprendeu a lascar a pedra direito. E ainda se tem o privilégio de sermos os únicos na galáxia, uma hegemonia que vai até Plutão que, por causa disso, foi rebaixado a asteróide, hehehehehehe.

 

E desde Adão que fomos educados assim: "pois ao que tem se lhe dará, e terá em abundância; mas o que não tem, até que o tem lhe será tomado" (Mateus, 13:12). E o cara-de-pau do Bushit parafraseando Clinton reiterou: "que não se enganem os pobres, investimentos só onde houver lucro!". Por isso, nem temos a impressão de que somos cobaias nem figurantes inexpressivos na vida, nos equilibrando sobre uma corda pronta para arrebentar numa profundeza abissal. Sei não, Deus deve está arrependido desde o dia que brincou de inventar as coisas ou está mangando da nossa vida de paspalhos. Hé, hé, hé, hé.

Luiz Alberto Machado.

 

* Crônica originalmente publicada no Jornal de Natal. Caderno Encartes, página 8. Natal, 14 de junho de 1999.

 

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