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O rebuliço começa
quando fevereiro se aproxima do carnaval.
É
verdade, fica tudo na expectativa pelo desfile estrondoso
do tradicional bloco carnavalesco As Puaras.
Isso
porque toda sexta na véspera de Zé-Pereira,
as ruas da cidade são invadidas por um bocado de
marmanjo barbado que solta a franga na maior frevada.
É
de menino a caduco, tudo na caricatura do calor na bacurinha,
embaixo do vestido de mulher.
Salve
o carnaval, onde tudo é permitido e prova que não
existe pecado abaixo da linha do equador.
A
resenha mesmo é no fuxico do sábado de manhã,
quando as más línguas descobrem desmunhecamentos,
frescuras e tendências para crucificarem o mais
novo pirôbo da cidade.
E
o comentário deles bem cedinho, acendendo os enredos:
-
Esse negóço de se visti de mulé,
é pederastia pura! É negóço
de fresco mermo!
Mas
isso tudo é só na suspeita, porque a exigência,
aliás, a única condição para
participar no bloco, é ser inequívocamente
macho que não fuja da raia, que esteja com o teste
da goma em dia e nunca haver desmunhecado nem em sonho.
Verdade,
ora.
Cumprida
essa única regra, o cara é enquadrado como
Puara de carteirinha com número de registro, filiação,
profissão, tipo sanguíneo, exames periódicos
de saúde (principalmente do procto) e carimbo de
validade renovável ano a ano.
É,
maior formalidade, nego. Isso tudo para ter o direito
de rebolar em vias públicas sem ser molestado pelo
escárnio da pecha sodomita. Negócio tudo
preto no branco. Na vera.
Agora
vejam: onde tem homem em demasia, o negócio prima
pela desorganização, né?
Sem
contar com as fragrâncias mais fedorentas.
Para
se ter uma idéia, o desfile é um verdadeiro
pandemônio. Uma orquestra na frente com um frevo
rasgado levantando até defunto, e uma mundiça
ouriçada e volumosa que sapeca o passo no rabo
de dinossauro do bloco.
As
fantasias, nossa, bizarria máxima, nem drags são
tão bisonhos. Maior meladeira. Se boiola já
é extravagante por natureza, imagine uma macharia
se metendo aos requebros da baitolagem?
Nem
aí, pois cada um bota prá fora a sua alma
feminina exagerada como pode: de cangaceira tarada, de
puta vadia e santa, de brejeira virgem assanhada, de perua
emergente e pudica, de fofoqueira inexorável e
escandalosa, de artista bundeira famosa, de peniqueira
sonsa e atrevida, de babá trepadeira, de tudo que
se possa imaginar.
Nego
bota bunda postiça, peitos amolestados e pernas
escancaradas, maior macacada.
Tem
delas que, basta botar uma olhada de constatar num valerem
um tostão furado de tão catraia risível
que se parece. Tudo um bando de mocréia deslavada,
cheia de asas para as bandas dos mais tímidos.
E ainda tem aquelas que saem sem nada por baixo, levantando
as saias prá mostrar os possuidos: é cada
penduricalho que se apresenta, dos mais envergados aos
mais enrustidos. E mais: aquelas que, por via de dúvidas,
não aceitam nem fiu-fiu, ou insinuações
cabeludas ou cantadas atrevidas, já com um trabuco
carregado na cinta, na caçola ou até mesmo
no cós da saia, para não desmanchar a reputação
do folião. Adiantou-se, o cano esfrega o pau da
venta. Isso no menos, porque dos arranca-rabos costumeiros
que, às vezes, duram horas e horas, já vem
arregimentando o festival de tapas e bofetes largados
a granel.
No
fim, tudo vira festa.
Pois
bem, um dia lá, Dojão, o capitão-mor
dessa doideira toda, estava macambúzio sem saber
o que fazer com o desfile.
Nessa
circunstância, quem aparece? Quem? Claro, Doro que
arruma uma solução ineivada depois de saber
o aperto do amigo.
Lá
vem ele com as suas.
-
Dojão, num s´aperreie. Eu tenho uma insolução
batata prá arresolver sua bronca!
- Iiiiiiiiiiiiiiiiiiiiihh
-, o Dojão já enjoou a lorota.
-
Siguinte: para aliguria do bróco, a Besta Fubana.
-
Vai, que mais?
-
Isso mermo, o símbolo da terra.
-
A besta?
-
Sim, isso cum desfile, cum a Besta, cum frevo e no finá,
como ponto di augi e sucesso, o concursi da puara mais
reboculosa e bunita qui será inscuída como
raínha puara o ano todo.
-
Como é? -, Dojão já aboticou os olhos
e demonstrou-se interessado na sugestão do Doro.
-
Isso mermo, boto tudo num papé, arrumo tudo, de
grátis pruquê meu sonho sempre foi sê
puara, e esse ano a gente bota prá arrombá
no carnaval.
-
Rapaizi, isso é uma idéia genial!!!!
Pois
é, e lá foi Dojão levado pelas tronchuras
do Doro.
Tudo
diligente nas providências. E no dia, até
que a coisa deu certo, não fosse o desmantelo da
alegoria que o Doro inventou de construir no quintal de
casa, com uma desproporção gigantesca que,
para sair dali, teve que fazer uso dum guindaste trazido
às pressas, além de destelhar a casa, arrancar
os caibros e linhas, derrubar umas duas paredes, arrombar
portas, tudo isso para que o exagero saísse do
quintal e alcançasse a rua.
-
Lasquei-me no prujuízo! -, lamentou Doro com uma
mão na frente e outra atrás.
Isso,
ainda, no preliminar.
Quando
aquela monstruosidade conseguiu varar tudo para chegar
na rua, outro estrupício: a bicha se enganchava
nos fios de eletricidade, causando circuíto e arrancando
tudo, derrubando poste, um desacerto pesado.
Para
encurtar, a tronchura só derrubou uns três
postes, duas barracas, três casas, amassou uns carros,
deixou uns quengos estrupiados com gaia exposta e terminou
enganchada numa patrol da prefeitura local.
-
Isso é lá coisa que se faça, rapaiz?
-, reclamou Dojão indignado.
O
pior de tudo é que a besta era desgovernada. Num
tinha quem conseguisse pastorar a danada.
Depois
de muito puxa-e-encolhe, conseguiram atrepar a danada
na carroceria dum caminhão lá. Como, não
me perguntem.
Pois
bem, tudo às escuras, foi aí que nasceu
o sucesso.
Lá
vem a orquestra rasgando um frevo arrepeado, com um caminhão
velho se peidando todo e carregando uma alegoria que não
tinha mais tamanho.
Todo
mundo ficou admirado com a besta que peidava e arrotava
com um fumaceiro desgraçado.
Era
cada estrondo de deixar meio mundo de gente completamente
mouco.
Mas
o que chamou mais a atenção do povaréu,
foi que o Doro tornou a besta híbrida, e entre
as pernas dela, colocou um agigantado prá-te-vai
com uma quartuda gostosa rebolando de fio dental na mira
da ajegada.
Putaqueopariu,
o negócio era mesmo de esculhambação
plena! Sexo explícito em plena via pública!
E
mais: todo mundo queria tocar na bimbona da besta. Sabe
por que? A negada apertava na pêia da besta e saía
o mijo que era uma batida: a Teibei, tomou, endoidou.
Maior carraspana.
Ôxe,
era um agarrado da gota com aquele membro descomunal.
E
lá vai o bloco. E atrás, já viu,
meio mundo de frevistas quilômetros abaixo.
Chega
então, depois de arrudiar a cidade inteira causando
o maior rebuliço, de pararem em frente da matriz
- olha só o desplante! -, num tablado improvisado,
e começou o concurso da Puara mais formosa que
reinaria o ano inteiro até o próximo carnaval.
Pronto,
liberou geral.
Foi
cada beldade fuleira na passarela, arrancando vaias, assovios
e maledicências. Fora as brigas que tinham de ser
apartadas e que se engalfinhavam ao final de cada aparição
delas.
Minha
nossa, a turma do empurra-empurra e do deixa disso, maior
trabalho. Findava brigando quem vinha para apartar. Isto
quer dizer que o vuque-vuque num terminava nunca. Mas
vamos ao desfile que é melhor.
Ôxe,
era cada ogro buchudo, cinturas de ovo prá cima
e prá baixo, desajeitamento escandaloso, tudo se
rebolando toda, num verdadeiro cúmulo do mau gosto.
Risadagem solta.
Acontece,
porém, que entre os inscritos apareceu um desconhecido
que chegara recentemente na cidade para ocupar um cargo
importante ali.
Como
se sabe, o cara mal chegou e, como era de costume, já
se tornara presidente do Rotary, alto-escalão no
Lions, venerável da Loja Maçônica,
paparicado e endeusado, quase até já candidato
a santo ou até mesmo ao lugar de deus, acaso ele
resolva se aposentar do céu do paraíso e
o cara aceitar. Pronto. Foi a principal atração.
E quando o sujeito entrou vestido numa fantasia de Lady
Diana, o negócio fechou. O cara botou prá
fora tudo das penas voarem soltas no ar.
Aí,
a negada do que-é-que-é-isso logo fechou
a cara.
-
Ô, Dojão, esse cara acende a fluorescente!
-, reclamou Doro.
-
Não, rapaiz.
-
Tu num cumprisse o regimento à risca, Dojão!
-
Foi não rapaiz, a pressão foi grande para
ele se inscrevê no concurso, o homi veio avalizado
por todo mundo.
-
Olhe, esse cara né homi não!
-
Esse queima o bocá da quartinha.
-
Eita, essi cara vai denegrí a image das puara,
meu. Qui é isso, Dojão?
-
Olha só a requebradeira do cara!
-
Uma mulézinha inscritinha, cara!
Oxente,
todo mundo boquiaberto, e a desfilante toda espaçosa,
linda, faceira e maravilhosa, largando as penas no ar.
O
júri estava em burburinho.
Alguns
dos mais achegados, estavam hipnotizados; mas, sempre
um cheleléu exigindo que todos se recomponham daquela
falta de vergonha, cutucando o outro para não deixar
a peteca cair.
Quando
a participante encerrou seu desfile, depois de jogar rosas,
beijos e frescuradas para a platéia em polvorosa,
ela porpositalmente caiu estatelada no chão sob
rasgado pranto.
Gente,
nunca vi chororô mais esperneado.
-
Qui foi qui hôve? Deu istrimilique ma bundeira,
foi?
-
Isso é lá coisa de macho, meu!
-
Bota essa frangaia prá fora embaixo do maior pau,
porra!
Foi
um corre-corre da gota! Um vexame.
-
Ói, Dojão, veja só a bronca que você
me meteu!
-
Eu sabia lá qui o cara era fruita, meu?
Mais
de hora se passara para apresentar o resultado. Concederam,
então, o título de raínha das puaras
ao mais desconjuntado dos sujeitos, ao Tonel-maciço.
Eita!
A Lady protestou veementemente reclamando o título
para si.
-
Veja se não sou a mais maravilhosa das que desfilaram?
Isso
a vaia comendo no centro, maior papagaiada.
-
Isso é uma macacada da frebe-do-rato!
O
negócio foi enfeiando, a ponto do Tonel-maciço,
o ganhador, partir prá ignorância com aquela
tresloucada figura, esbofeteando-a e chamando na responsa
da homência dos dali. Maior quiprocó.
Daí,
festival de tapas e pernadas, tudo visando salvar a reputação
puara.
A
ofendida não deixou por menos, saiu arranhando
um e outro, dando beliscada em todo mundo, até
que se viu sem peruca, maqueagem borrada, sem brincos,
adereços, nem roupa, só de caçola
bunda-rica de fora, na carreira com maior chororô.
Disso
o negócio empretou.
Dia
seguinte, a sentença: As Puaras estão proibidas
de desfilar a partir de agora e para todo o sempre, em
nome do pudor público, amém.
E
o Doro com isso? Doro mais sentimental que nunca aquilo,
amargou o prejuízo e sentenciou:
-
É, acabaru cum a folia. E eu lasqueimi todo cum
meu prujuízo.
Viva
o carnaval!!!
©
Luiz Alberto Machado.

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