
michael
orton

Estupefato
fiquei sob o ardor inclemente do sol de meio dia em pleno
mês de junho, normalmente aguaceiro de inverno.
Era
véspera de São João e tudo já
deixava claro que algo inusitado estava por acontecer.
Ademais,
também era tempo das comemorações
de emancipação política do município
de Alagoinhanduba. Pleno feriado, dois dias encarreados
só para os festejos onde tudo era envolvido com
as casas ornadas com flores de variegados matizes nas
janelas e o povo em polvorosa doido pela festança.
Aquela correria pro ouriço.
Logo
cedo, acordava o povo o desfile da banda de fanfarra,
anunciando outros eventos e desfiles de alunos das escolas
agrupadas aos pelotões, malabarismos, autoridades
num palanque engalanado, gente como a peste, tudo prestigiando
a efeméride.
Os
tiros de bacamarteiros na praça central davam por
iniciado ao tradicional ajuntamento de gente nas calçadas.
As
ruas ornamentadas de bandeirolas dum canto a outro de
todas as ruas da localidade, expressavam o ar de festa
estufando o peito da patuléia alvoroçada,
doida para ver a marcha garbosa dos meninos dos ginásios,
os rapazes dos colégios e os marmanjos da polícia.
O
palanque das autoridades tinha mais caboeta que se engalfinhava
por aparecer mais que o outro, acotovelando-se para ficar
ao lado do maioral. Lá estava além do prefeito
banguela, o usineiro desconfiado, o deputado zarolho,
o bispo sabido e o estafe da babaovice com suas melindrosas
madames mais pintadas e enfeitadas que as alegorias caricaturais
das escolas. Um verdadeiro carnaval de exposição.
Uma
fogueira gigantesca, daquelas de alcançar o céu,
queimava lenha no centro da praça principal. Outras
tantas nas calçadas e uma outra numa rua ao lado,
onde se daria a competição mais apreciada
e afamada, a de pula-fogueira. Era a hora da cerimônia
mais respeitada do lugar. O momento que cada um se revestia
do orgulho de ser alagoinhandubense até na alma,
debaixo d´água ou torrando num fogaréu.
E,
num instante, duma hora pra outra, sem mais nem menos,
tudo turvou, virara noite, escurecera. Os bombos silenciaram,
o desfile paralisou e até a respiração
foi suspensa. Só os galos cucuricavam meio encangados
no poleiro, numa tristeza tumular.
Não
havia por ali, que se soubesse, notícias de qualquer
eclipse lunar se sucedendo por enquanto, muito menos aquilo
era hora noturna. Não havia uma só estrela
no céu, tudo muito opaco.
Aos
poucos, uma inhaca insuportável alcançara
os septos nasais, num bulício de fato nauseabundo.
Que fedor filho da puta! Não havia fôlego
atlético que conseguisse se poupar daquele mau
cheiro. Um desastre sem precedentes aquele.
Ninguém
descobrira, até então, por enquanto, a causa
de tão fedorento mal estar, visto que nenhum valetudinário
seria capaz de tal fedentina. Será? Era bosta pura,
daquelas bem catingosas de dias armazenados no bucho de
prisão de ventre.
O
negócio enfeiou com a turba grossa, da negada zarpar
numa carreira para longe daquela tragédia, pisoteando
o que se estirasse pela frente e comendo a quilometragem
com sede de distância.
A
cidade ficara, de repente, deserta. Não havia um
pé de gente para remédio. Tudo escafedido
para as lonjuras limítrofes.
Meia
hora depois de tanta carreira, quase que todo mundo morre
sufocado duma só vez. O oxigênio tornava
a respiração normalizada e, pela fétida
emanação, a comunidade se evadira do lugar,
buscando ar puro longe dali mesmo. O que se sucedera,
afinal?
Depois
de quinhentas mil continências, milhões de
providências tomadas sob o rigor das autoridades,
vasculhara-se em todos os logradouros e constatava-se,
para infelicidade de todos, que nenhuma imundície
se instalara pela redondeza para causar tamanho transtorno.
Teria
sido, então, um peido do céu? Ou uma explosão
de alguma arma química bostal? Ou o quê?
Com tais indagações, depois de muito se
investigar pelos quatro cantos do mundo, desconfiaram,
claro, todos já desconfiavam do Abinagildo, este
sim, Abinagildo Mendes Sobrinho, um sujeitinho tísico,
manemolente e tíbio, pífio e tacanho, todo
macambúzio depois de uns ventinhos nababescos,
que possuía o costume de, de vez em quando, emitir
aquela emanação volátil do corpo,
daqueles verdadeiros desmancha prazeres. Eita bicho da
cloaca podre, meu.
Ora,
eu jamais que acreditara, entretanto, depoimentos muitos
me fizeram crer naquela possibilidade de ter exatamente
partido dele aquela podridão em plena festa. Era
tiro e queda.
Pois
é, muito me estranhava Abinagildo morar isolado,
fora dos domínios da cidade, numa casa de alvenaria,
sem vizinhos, no ermo de um morro. Dava até pena
vê-lo assim em abandono completo, tadinho. Tadinho,
nada, vamos nessa.
E
muitas me contaram da razão de sua soturnidade,
às vezes até lipemaníaco pela maldição
que carregava. Depuseram-me aos mínimos detalhes
suas presepadas corroborando seu exílio compulsório,
seu desterro determinado. Tudo isso alimentava a vingança
popular que lavou a alma naquele dia de festa.
Pois
bem, fuxicada solta, soube que uma delas entre as tantas
outras, deixou o prefeito Desidério Silvino roxo
de raiva, puto da vida! Relataram-me que foi no dia em
que o Biriteiros Esporte Clube, escrete da maior representação
futebolística da província, calor da torcida
local, recepcionara em uma partida amistosa, o Clube Náutico
Capibaribe, do Recife, atual hexa campeão pernambucano
e vice campeão brasileiro, não se sagrando
campeão por ter enfrentado o Santos Futebol Clube,
com Pelé e companhia.
O
apito do juiz dera início na partida e o chute
batendo o centro num foguetório colorido que tomou
conta do estádio. No meio disso, os fogos de artifício
foram acompanhados de inhacas podres de deixar um horrível
eflúvio no ar, a ponto de suspender o jogo.
O
Náutico excomungara aquela cidade, arribando imediatamente
daquelas imediações sem ao menos sequer
fazer um ataque na defesa do Biriteiros. Só deu
tempo bater o centro, pronto, tudo por água abaixo.
O time pernambucano foi-se com a idéia de que ali
só existiam cagões e mais nada. Covardia,
né?
O
prefeito, incontinente, mandou prender Abinagildo que,
culpado, se escondera longe para livrar-se do flagrante
delito e da enfezada raiva da torcida local que prometera
linchá-lo numa repulsa pública geral.
Não
era por menos, era mesmo um vício de nascença,
já consultado médico especialista sobre
o assunto, obtendo-se por diagnóstico tratar-se
de rebento nascido de vento ruim, procedente de maus bofes.
Nossa,
a ciência não explicara direito, mas o de
branco, asseverava que estava diante de um fato inusitado,
pelo que a tripa gaiteira do dito cujo deveria de ter
algum defeito na fabricação da bosta ou
o desgraçado já nascera podre mesmo, necessitando,
invariavelmente, de uma intervenção através
de clister para desobstruir-lhe a bosta retida. Só
que o fabricante de bosta conseguia ser o maior peidão
que já se tivera notícia, fato até
que se tentou colocar no Guiness mas não foi possível
por ser tratado como verdadeiro despropósito.
Muito
embora, hoje, depois do ocorrido, uma banda de gente da
cidade se orgulha de ter o maior peidão de todos
os tempos. E até já se viu muito bate boca
entre os que reverenciam a figura santificada do Abinagildo
com os que detestam qualquer lembrança de sua maledicente
podridão.
-
Vôte! Ele nem cuidava da alma porque o corpo já
era podre mesmo!
Os
enfurecidos do contra, numa reunião acalorada na
câmara de vereadores, discutindo se homenageariam
ou não tal figura polêmica, narravam na tribuna
que nem davam por menos e lá vinha aquela ventosidade
emitida pelo ânus de modos que, uma vez, até
o locutor do telejornal tapara o nariz e que a televisão
suspendera a transmissão alegando em letras garrafais:
SUSPENDEMOS NOSSA PROGRAMAÇÃO POR MOTIVOS
DE FLATULÊNCIAS INSOLENTES NO AR!
E
o que é pior era a descaradisse dele Abinagildo:
Perde-se o amigo, nunca a piada nem o peido!
Uma
vez, contam enraivecidos, que numa praia vizinha, uma
dor de barriga nele, levou o indecente a fazer as necessidades
na água marinha, causando verdadeiro maremoto.
O cara afundou-se na água para excretar, dando-se
a perceber a bosta undívaga se aproximando das
pessoas com uma quentura de ferver a água. Pois
é, cagando, soltou um daqueles que as principais
manchetes estamparam ferindo o rigor jornalístico:
PEIDO CAUSA CATÁSTROFE NO MAR. E toda aquela imensidão
marinha adquirira uma cor escura com ondas de mais de
vinte e cinco metros de altura, trazendo prá mais
de dez mil surfistas no maior auê radical da paróquia.
Eita, bôba torreiro! Este estava com a bexiga lixa.
Certa
feita, fora demitido da empresa onde trabalhava porque
suspendia as atividades e baixava a produtividade, vez
que no calor do expediente vinha aquele odor de merda
choca que invadia todas as dependências da corporação,
expulsando clientes e funcionários esbaforidos.
E o pior, onde ele ía, o peido vinha atrás.
-
Peido desse lata de lixo é fragrância francesa!
-, reclamavam todos unanimemente.
Há
quem ainda hoje reclame de manhã, de tarde e de
noite, diuturnamente, vítimas do seu cinismo, não
se podendo manter a compostura ante a falta de decoro
do descarado.
Peta
que fosse, vinha aquele verdadeiro mau hálito anal
de torrar os pentelhos do cu, flagrando várias
vezes aquele posudo confortavelmente agachado em bacias
cheias de água esfriando as pregas, onde assoprava
aquele ruído de coisa queimada.
No
início, consideram, eram os modestos; depois, mais
agudos. Daí, meu, surgiram, então, os de
queimar sofás, colchões, cadeiras, não
se dando conta dos prejuízos que causara aos amigos
em suas furtivas visitas. Perdera, assim, ao longo dos
tempos os parentes e amigos mais próximos, motivo
que o levou a recorrer de ajuda superior, rezando, contrito
e, no meio da oração soltou unzinho cavernoso,
da imagem da santa protetora tapar o nariz, não
agüentando a feijoada de ontem. Resultado: fora expulso
dali pelo padre, avalie, excomungando até a centésima
geração.
Até
uma outra disseram vingativos que ele mesmo já
fora vítima de sua própria indecência,
quando, em sua casa, certa vez, deitou-se em sua cama
com o seu abafa-banana familiar, um daqueles cobertores
de mais de cinco centímetros de largura, daqueles
próprios para o frio polar, quando soltou um que
ficou, o próprio, bêbo! Pode? Por causa disso,
lá, na casa dele, não tinha nem mosca, nem
mosquito, nem bicho nenhum, nem muriçoca ficava.
Quem
tivesse a oportunidade de ver o álbum de família
dele, logo descobria porque ele era enjeitado por todos,
vez que, em todas as fotos, mãos apertavam o nariz
para não sentir o fedor. Verdade, era um peidorreiro
desgraçado. Também pudera, minuciosamente
contaram da sua dieta peculiar: feijão, fruta pão,
ovo, cebola, jaca, fígado de boi, abacaxi, cachaça
de cabeça, isso aos quilos todo santo dia. E era
costume após a ceia, almoço ou hora de gororoba
qualquer, imaginem, o cara massagear a pança e
puuuuuuummmmm! Sorria satisfeito. Depois, chorava aos
tombos, sentindo o ardor no procto. E quem estava perto
nem podia socorrer, porque não suportava o gás
assassino dele.
Dando-se
conta de sua peidorrada, ele mesmo encontrou um meio de
coibir a fetidez: quando ocorria, riscava um fósforo
bem nos fundilhos - repara só que presepada -,
a ação era imediata, armado de fogo, investia
mão em direção da bunda, fósforo
aceso e logo queimava o gás indesejável.
Resultado: seis calças, tres cuecas, duas sungas,
tres bermudas, quatro calções, tudo com
rombo de queimadura na bunda - não é prá
menos, né?
Por
fim, depois de tantas emboanças e perseguições
buscando a cura para o seu desígnio, achou de,
por bem de seu senso meio lá e meio cá,
em plena festividade que ocorria justo às vésperas
de São João, percebera, enfim, que chegara
a hora da sua salvação, e dera de participar
com outros mequetrefes da redondeza, dum festival inusitado
de pular fogueira, onde soltaria um que o fogo abrasaria,
acabando de vez com aquele mau costume. E mais: certo
de que sairia campeão esperou para ser o último
participante.
Pois
é, enquanto o povo se espremia na rua central,
afagado pela estridulante gritaria do locutor oficial
da festa política, ele competia com outros busuntões
dali, numa pulada de fogueira, numa das adjacências
do local.
Enfim,
chegou sua vez, nervoso, concentrado, treinou a impulsão,
fez carreira e, determinado, é um, é dois,
é três e zás! E aquele borborígmo
mais parecia um jato queimando tudo. Lá se foi
gritando pela estrada verdadeira labareda que tomou conta
dele. Sumiu cidade afora como uma tocha humana.
A
festa de São João acabada e ele sumido pegando
fogo. Daí, todos vingados e com ar de bem feito,
narram histórias da tocha humana, o cara que, ao
que parece, foi acometido de uma combustão involuntária
de deixá-lo torrado pro resto da vida.
Dias
depois, encontraram algo estranho na beirada de um chafariz,
não se dando para identificar, mas presume-se sejam
os restos mortais dele. Ainda hoje está lá
aquele monturozinho de ossada queimada num local apropriado
para cuspidas, mijadas e depósito de nojeiras outras
impensáveis.
Luiz
Alberto Machado
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