anke bromberg

 

 

Já estava se aproximando o mês de outubro e com ele o vírus das eleições num pleito que incendiava ânimos, envolvia intrigas, desenterrava rixas e, de quebra, movimentava calorosamente a edilidade mais parcimoniosa quanto marasmódica era.

A circunscrição judiciária em voga, localzinho desimportante que sequer figurava em qualquer mapa, possuía algo em torno de alguns milhares de habitantes, quantidade esta contestada por macorongos e vezeiros pela mesmice de que não se aumentara sequer uma casa desde o último censo demográfico de trinta anos atrás, visto que fora esquecida pela estatística nacional. E para embananr tudo fora invadida por mais de dez candidatos a prefeito e mais de mil pretendentes às novas vagas da câmara de vereadores que, pelo visto, tratava-se de um complexo urbano miúdo daqueles criados apenas para atender veleidades políticas e já com os vícios beligerantes e maledicentes daquelas falcatruas partidárias que mais viram casaca seguindo conveniências coronelísticas da região.

Era só o bafejo maldizente dos chefes políticos agitar o ganzá que a mundiça trocava de cueca como se fora desde menininho daquela coloração partidária. E o pior que ninguém sabia quem era quem, de que partido, pela mudança de segundos para outra agremiação política. Vôte! Contrariasse não a imposição do mando deles, quem era doido?

Era uma correria sem fim, tendo o cristão de trocar das molduras antigas afiliações a um deles, confiscando fotos, flâmulas, manifestações de apoio, tudo para substituir e acomodando para a atual compleição. Parecia mais feira de troca-troca.

A zoada era ensurdecedora em Alagoinhanduba: uma euforia se engalfinhava com santinhos, panfletos, faixas e cartazes pregados nos mais diversos locais, produzindo um colorido contrastante.

Pior não era nada, um dia passava um partido e enchia a cidade de retratos com o seu pretenso aspirante ao cargo eletivo. No dia seguinte, outra agremiação pincelava a efígie dos seus, por cima. Mais outro dia e era a vez de outra trupe e, como já sabemos, com mais de dez pleiteantes à majoritária e prá mais de mil nas proporcionais, imaginem vocês, como ficavam as paredes dos prédios, residências e locais públicos. Tudo era vítima de colagem, spray, frases de efeito, palavras de ordens, chavões e das mensagens mais plenas de êxitos. Era a maior quebra de braço entre os poderosos que queriam provar quem mais mandava ali naquele miudinho lugar. Era um derrame de verdadeiras fortunas, comprando o voto, a vida e morte do eleitor. Contrariasse isso, sete dias depois estava lá missa para defunto na igreja da matriz.

As famílias tradicionais se digladiavam umas com as outras na mais ferrenha matança de seus componentes que apesar do morticínio mais se aglomeravam. Parece que quando morria um, nasciam dez ao mesmo tempo. Verdade, só a filha do coronel da Mancabira teve sêxtuplos. Isso sem contar com a ingrezia resultante desse despropósito, pois o inimigo de ferro e fogo dele queria, então, que a filha dele tivesse mais que isso e, de preferência, o dobro de rebentos do adversário. Uma competição mesmo.

Não bastasse ceifarem uns aos outros numa verdadeira guerra de famílias oligárquicas, vinham as arengas fúteis para um desmoralizar o outro logo de cara.

Maior de mesmo era a gritaria imensa nos carros de som, com pessoal de pesquisa atanazando o juízo de todos diariamente, sem contar com as desavenças, calúnias, ofensas e infâmias entre os candidatos e os cabos eleitorais que só esperavam a caravana do opositor passar, para logo desmancharem tudo o que foi feito pela equipe, um atrás do outro, encangados, confundindo todo mundo na maior das baixezas e mesquinharias.

Era passeata, comício, xingamentos, encontros comunitários, discurseira, imbróglios, protestos, despautérios, promessas, conversa fiada, mentiras, porta a porta, ameaças, estremecimentos de relações, uma agenda com todo tipo frenético da loucura eleitoral.

O infeliz que acompanhasse aqueles estouvos não saberia jamais em quem depositar a confiança para sufragar e representá-lo no complexo urbano, verdadeiramente fundia a cuca, claro, não podia ser de outro jeito, hem?

O negócio era tão participativo que o embate se tornava mais violento, já se infiltrando veia adentro dos mais incautos. Aliás, participativo só não, dos mais duros, onde os habilitados aos cargos faziam de tudo: isolavam ruas e bairros do seu curral eleitoral, determinavam fronteiras uns aos outros, num código de honra muitas vezes quebrado devido dissidência desse ou daquele eleitor, isso não contando as avexadas atitudes de prescreverem receituários sem jamais ter sequer passado em frente a uma faculdade de medicina ou farmácia; comparecerem a cerimônias de casamento, aniversários ou comemorações outras sem ao menos serem convidados; davam conselhos, baixavam santos, outorgavam procurações de poderes que não possuíam; submetiam eleitores a intervenções cirúrgicas gratuitamente executadas por profissional inapto em troca de voto dos seus familiares resultando num bocado de aleijão cidade afora.

Muitas vezes o cara chegava com uma dor de dente e extraíam o apêndice. Isso fora os equívocos de enfermidade visual tendo que amputar uma perna. Pode? Resultado: era um bocado de nego troncho, vítima da imperícia dos profissionais eleitoreiros.

Não parava nisso, tinha mais: doavam posses adquiridas em transações escusas, muitas delas apropriadas indevidamente, proporcionando uma pendenga judicial mais tarde; atendiam a todos os pedidos, os mais estranhos até, os mais fúteis como o de efetuar uma viagem de vinte e quatro quilômetros num pinga-pinga só para acompanhar os decentes até o rumo tomado como um guardião da vida daqueles passageiros; e na ocasião que desse mostrava sua plataforma de governo, inclusive, nos momentos mais impróprios como enterros, reuniões, júri, audiências, aproveitando tudo.

Sem mais nem menos os candidatos beijavam rostos suados e fedorentos, antes rejeitados, para mostrar o grau de amizade no seio popular; adquiriam boqueiras, fedores exsudares, chulé brabo, frieira, chato, cancro, blenorragia, pano branco, só para mostrar o quanto estavam ao lado e à altura do seu povo; bebiam de tudo, de chá com cachete a uísque importado; e em ocasiões despropositais tragavam fumo de corda, cuspiam no chão, jogavam porrinha e ainda arrotavam sadios depois da comida.

Aí era debate aqui, discussão ali, distribuição de dinheiro falso, autorizações descabidas para registro civil, licença médica, além de objetos de necessidade da comunidade como dez tijolos para sicrano; uma benzedeira para fulano, um crucifixo de lata para beltrano; um chocolate numa caixa de televisão para outrano; e assim por diante.

Na maior das insolências botavam gaia, chupavam picolé de água, davam carona e socorriam qualquer sujeito que bastasse levar uma topada e já estava na emergência com equipe médica, ambulância e tudo em exame meticuloso para que o decente estivesse inteirinho na hora do voto.

— Tá doido, já pensasse se isso vira uma gangrena?

Todo esse aparato para consolidar a vitória do altruísta no dia quatro de outubro.

Os desdentados sorriam mostrando sua prótese nova doada pelo senhor fulano de tal, ligado à legenda do partido de não sei o quê.

Outra: devido a tanta sigla a confusão era grande, ninguém sabia o que era cada uma e trocando as letras para pqp ou psqb ou pqb, tudo era uma bosta só para a plebe ignara.

— É nesse que eu vou votar, vou sorrir com ele com minha dentadura nova!

Qualquer que fosse o presente do candidato para o eleitor era como se fosse um favor que nem a morte pagaria, era um débito vitalício e como gratidão quantas vezes o candidato postulasse o cargo, o danado recebia o voto da família inteira, até que ele morresse abrindo a opção para outro candidato.

Os descamisados orgulhosamente expunham suas camisetas ofertadas pelos diretórios de um certo partido com mais de uma dezena de nomes impressos, frente e verso, tudo isso e mais alguma coisa que servisse de propaganda – houve um que distribuiu cuecas, calcinhas e camisinhas para os correligionários, até um sapo de estimação, um berilo inútil, um bago de jaca, um bisquí quebrado, além de outras baboseiras imprestáveis. Tudo servia para angariar a simpatia do eleitor. E a briga era ferrenha e sempre sobrava um incidente diário para mostrar o poderio de um grupo sobre o outro, às vezes até chegando às vias de fato com derrubadas de out door, cartazes metralhados, celeuma por espaço, panfletos colados sobre a cara do adversário, brigas de rua, morte de instante a instante, pisas, injúrias, blasfêmias, alianças, acordos, conchavos, jogo baixo, jogo de cintura, faixas rasgadas, desmoralizações, prestidigitações, calúnias, insultos, engodos, animosidade, comícios acabados na tapa, num grande pau, isso tudo com anúncios de democracias de fachadas, de conveniências, de acordo, de nada.

Um detalhe: só os coronéis que não se enfrentavam cara a cara, todo mundo prosélito é que escaramuçava doidamente defendendo a pele do apadrinhado.

Dentre eles, no meio do maior redemoinho, estavam dois cavilosos, o Zé Rapa e Doro, dois pretensiosos candidatos à vereança por legenda partidária das pequenas, sem fôlego para entrar na briga da turma poderosa, mas com criatividade e arrumação lutando no meio deles para garantirem uma vaguinha na câmara e sair daquela pindaíba que se meteram com o nascimento de suas vidas sempre atomentadas de almas cândidas e insignificantes.

Eleitos, já se davam, claro, tencionando fazer uma carreira política promissora iniciada agora como vereador, depois, prefeito, de prefeito para deputado estadual, da assembléia legislativa para governador, do executivo estadual para deputado federal, de lá para o senado e, do senado, quiçá, para presidência da república.

É que pensavam assim por baixo, mas quem sabe depois, até mesmo alguma autoridade mundial inaugurando um governo único e hegemônico no mundo, pintando e bordando no universo.

Pois é, os cabras se enchiam de empáfia e já andavam de nariz empinado para se distinguir da patuléia. Isso tudo nos propósitos de dois pés rapados que almejavam milagrosamente uma ascensão na escala social via representação política. Se muitos se arrumam, por que eles não?

Na virulenta eleição todos já se enroscavam contagiados e Zé Rapa e Doro, que não dormiam no ponto e nem deixavam o cachimbo cair, se desvencilhavam pelas alternativas suburbanas, procurando artifícios no intento de conseguirem um votinho a mais.

Eis que um dia, os dois foram surpreendidos por uma convocação popular durante um comício relâmpago, em cima de um tamborete, na bodega de Zuzezinho do Sport.

No meio do disparate foram convidados a exorcizarem uma mulher que se encontrava com encosto dos brabos, dito com o verdadeiro diabo no couro e na maior das tresloucadas atitudes inimagináveis.

Os diletos aspirantes não renunciaram da empreitada e investiram na desafiadora situação de cabeça. E, conjuntamente, presenciaram logo a mulher virada no cão, fora de qualquer senso racional, o que, prontamente, cabulosa condição imposta, não tiveram dúvida, entraram fundo no meio do canjerê e se exibiram com trejeitos de capoeira misturados com rituais profanos aprendidos no xangô de Meraldita e pronunciando um bocado de besteira, passando a mão na cabeça e se dizendo incorporados pelo santo Zé Pilintra.

Não obtendo sucesso logo, depois de quarenta minutos de enrolação, partiram para a força bruta: deram uma encostada maliciosa na dita senhora, começando por uns sutis beliscões até safanões, cada bufe-bufe ineivado nas costelas da endiabrada, de só ouvir-se a pancada do punho nas partes todas da fulana. Ôxe, é que os dois bateram tanto nela, da coitada ficar molezinha e de sono solto, sob a alegação de que o espírito ruim só saíra na marra, senão atormentaria todo mundo. Pendência resolvida, eles saíram ambos à cata de voto dos mais ingênuos dos tolos para derramarem seus programas de ação. Doutrinando o leigo na sua fé, iam os dois imprimindo ora informações detalhadas da esquerda e do socialismo utópico; ora pressupostos liberais com colocações das mais conservadoras, misturadas às reticências anarquistas, coisas do encantado, eufemismo, acomodando seu raciocínio e discurso à tendência de escolha de cada interlocutor, em opinar entre o certo e o errado. Dispunham assim de uma falácia brejeira reiterada de umas palavras buscadas a dedo no dicionário da biblioteca e se o sujeito interpelado fosse simpático de direita, aí destabocavam tudo que fosse pertinente à situação e dos poderosos numa apologia aos governos militares e a ditadura que nunca deveria ter saído do governo e coisas do gênero. Mas se o abestalhado se inclinasse para a esquerda, emitiam todo um completo inventário de ideais revolucionários com armações de guerrilhas e motins para derrubar o governo que deveria estar nas mãos do povo e não em meia de dúzia de opulentos detentores do poder. E mais: se o indivíduo fosse mergulhado numa apostasia, não tendo predileção alguma, aí eles deitavam e rolavam com um proselitismo equânime, deixando o cara doidinho da silva a ponto de comer merda e rasgar dinheiro. Assim agiam.

Apesar de toda essa harmoniosa parceria entre Doro e Zé Rapa, vez por outra se estranhavam desconhecendo o laço de amizade que os envolvia. Essa antipatia mútua e passageira, ao mesmo tempo, surgia quando algum de seus apaniguados fazia opção por um dos dois, deixando o outro enciumado, sentimento este que só seria afastado deles no meio de uma bebericagem ilimitada, o que fazia com que ambos não encontrassem dificuldade alguma em se enfrentarem lavando os panos.

Devido cada casa que visitavam, entre uma e outra, havia um pega-bêbo, isto é, de cada dez instalações edificadas numa rua, cinco se destinavam á residência, o restante delas serviam de bares, bodegas, vendas e mercearias diversificadas. Uma puta concorrência.

Havia sempre um ambiente propiciando uma confraternizaçãozinha, sob o signo sacrossanto do produto final da indústria alcooleira. E o mais prestigiado de todos, era o bar de Zé Mago devido variedade etílica disposta e o tira gosto mais cobiçado dos pinguços, cachaceiros, aguardenteiros, biriteiros, amigos de copos, copólogos, bebões, bicadores, canistas, meoteiros e afins.

A especiaria oficial do recinto era a carne-de-sol com tempero de mistério acompanhada de arroz branco, feijão verde e manteiga de garrafa, delícia muito apreciada e nunca esquecida na vida do importuno até dos que vinham lá das bandas do sul do país. Nego descia do Uruguay sentindo o cheiro da iguaria, a exclusiva no mundo. Quem chegasse ao local encontrava logo, além da tradicional comida, alguns personagens que já fazia parte do recinto, como o Rodolfito Roneinstein, sujeito língua-solta bebericando umazinha. Com ele Cara Véia, falando tão alto de não permitir que ninguém mais pronunciasse sílaba alguma, dono da razão dele. Noutra mesa, um time da pesada: Gal Langau, cheio de proseado; Golde de Jandira, com sua carequice e bom humor; mais Pedim do Padre, Drôco, Paulo Chaba, Genésio-a-mulher-do-vizinho, Raposão, Mulatinho, Sebinho-cheio-de-pau e Perebento. Em pé no balcão estavam o Ciço Curió, Pacaru, Vavá Guitarrista, Toinho Ôião e Mazinho, ouvindo um baticum de Linaldo e Cikó e na cantarolada do Santanna, um chinês que cantava tal qual, cagado e cuspido, ao mestre Lua Luís Gonzaga.

Para animar mais o rebuceteio, uma borrasca despencava do céu impunemente, agoando a sede dos marmanjos. Mais um motivo para que estivessem ali reunidos.

O bar estava cheíinho pela borda com todas as mesas ocupadas e, Zé Rapa e Doro, sabidos e aproveitando a ocasião, catavam voto de mesa em mesa e ingriziando um com o outro pela preferência de um dos eleitores consultados. Ouviam atentamente o que os operários da usina Serro Anil dialogavam da situação que imperava naquele parque industrial, próximo da bancarrota com mais umas outras quatro usinas da região.

Os da cerâmica do Barão alegavam que aquela unidade fabril passaria de olaria bem equipada para depósito de sucata a olhos vistos.

Os garis reclamavam do atraso de pagamento e que a prefeitura já acumulava seis meses sem previsão de pagamento, quando o prefeito promovia shows performáticos com ídolos do sul maravilha e cachês altíssimos para uma sacolejada nos esqueletos durante os festejos juninos, pósjuninos e newjuninos.

Isto é, os ofendidos estavam reunidos fazendo um coro de indignação e cobrando dos dois calouros providências enérgicas nessa safadeza toda. E eram ceifadores, estivadores, calungas, balconistas, garçons, faxineiros, ticoqueiros; cozinheiros, frentistas, jardineiros, bancários, vigilantes, flibusteiros e lêmures, galera dos propósitos daqueles futuros representantes públicos.

O bar estava mesmo cheíinho até no banheiro, enquanto Zé Rapa e Doro persuadiam ali e acolá um ou outro sobre suas conjeturas políticas.

Uma ou outra caninha com caju, exaltação dos ânimos, uma bravata surgia na cabeça endiabrada, os nervos à flor da pele, feria-se o brio quando um botava a mãe do outro no meio da pabulagem, num lugar inadequado da conversa e virando uma esculhambação.

A exaltação pegava fogo quando os discursos inflamados denunciavam que o pai não tinha uma reputação digna e um passado duvidoso; que a mãe de outrem era puta, a minha não, a sua! Foi o meu pai que comeu a sua mãe; a minha nada, foi a sua! Dabou-se! E tome trupé! E lá vai discussão acalorada e a turma do vuque-vuque conseguindo contornar, por enquanto, e juras e ameaças eram aplacadas, se acalmando, se beijando até, jurando que aquilo não mais se repetiria e já estavam conversando normalmente miolo de pote e invadindo uma mesa alheia para a divulgação de seus ideais.

Lá ia uma caninha, duas, três, quatro, tudo liso, sem um centavo no bolso e um novo eleitor preferiu um dos dois, a mãe voltou ao centro das atenções, entrando pai, irmão, cunhado, avô, a descendência, a poscendência, a quinta geração, e bastou um empurrão para começar o festival de mãozada, pernada, copada, lascada, dedada, charopada, murro na cara alheia, tabefe em quem não tinha nada que ver com aquilo e o pau cantando no meio do escarcéu.

Foi cadeirada, mesada, garrafada, panelada, facada, joelhada, revolvada, dentada, cotovelada, cabeçada, pistolada, cacetada, lapada, triscada, bisquizada, bujãozada, orelhada, bundada, picada, pesada, calcanhada e a coisa se tornando cada vez mais arrepiada.

Era pedaço de perna num canto, língua no prato, orelha enfiada no trinco da porta, tabiques, cinzeiros, palavras, chunchos, garruchas, queixo caído no chão, dentadura rachada no meio da estripulia, tudo assim jogado para cima num buruçu de ninguém nem identificar ninguém.

Quem andava apartando a briga agora estava doido para esquentar a palma da mão, e era nego com orelha queimada, soltando tabefe no toitiço alheio.

Eis que no meio dessa trepeça toda, entra um desavisado para comprar um refrigerante quando foi atingido por uma dentadura assassina que escapulira de uma boca desdentada lá de dentro. O sangreiro espirrando no meio da testa, quengo rachado, retornou para a calçada e ficou assistindo a briga de foice. O fuzuê estava palpitante, que o cara antes assistindo a celeuma, animou-se, deu tres passos para trás, fez distância e fez carreira pulando dentro do bafafá, u-ru!

O saculejado deu de juntar gente do lado de fora e os que se empolgavam com a festança entravam no meio.

Um que saíra de dentro da rusga provocou a turma do lado de fora e daqui a pouco ninguém sabia quem era dentro nem quem era fora, tudo engalfinhado presepada só.

Quando o velho Antão Dias vinha assobiando pela calçada, carregando duas telhinhas para completar o teto da casinha de cachorro dele devido umas pingueiras, logo se aperreou porque arracaram-nas de seu poder e de suas mãos foram parar no meio do maior cú-de-boi-na-área-do-Central!

Para condimentar o sucedido, ainda chuviscava do lado de fora e a procela de tapa comia no centro.

Daqui a pouco só se via cacos voando porta afora.

Ninguém nunca vira um fuzuê daqueles, tudo suspenso no ar, ninguém nem nada tocando no chão, só a poeira comendo, só se ouvindo mesmo era os tei bei das tapas. Ôxe, e foi calo estourado, lancetada na orelha, unheira magoada.

Um abestalhado que ia saindo, sorrateiro, digitígrado, louco para cair fora daquilo, quando do nada surgiu um persuador no maluvido de deixá-lo mouco por umas seis semanas. Daí arretou-se e voltou prá baderna e aí foi mais olho sangrando, esfíncter estourado, pregas roladas, nego esfolado, prédio derrubado, polícia no meio, soldado apanhando, cacete no lombo, que droga é nove? Ainda hoje pergunta o delegado.

 

Luiz Alberto Machado

 

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